quinta-feira, 19 de abril de 2012

de novo, de dia

derrubei em cima dos antigos trapos
os momentos de entusiasmo desmedido
esperei batendo o pé no asfalto da esquina
no mise en scène da vida desenbestada

guardei a bituca no bolso

em caso de alvoroço do outro lado
junto meus trapos e caio fora
o salto pode ser mortal
nessa altura da avenida

ah! se os farrapos desses panos encardidos
falassem
poderiam balbuciar o fim de uma era definitiva
onde o chão seria um manto de pétalas
sem asfalto pra pisar
e os ares repletos de helio
enchendo as barrigas
e cabeças dos seres
livres para flutuar

mas trapos não falam
e devo caminhar agora

sábado, 14 de abril de 2012

sextas na porta

esse vento que te resfria
de antes só esqueço daquele teu gosto
do respiro cojugado naquela noite
que foi una, absoluta em sua plenitude

com o tempo, por aí
as sextas etinerantes passam
de porta em porta
deixando apetrechos de lembranças
pequenos tesouros sensíveis ao toque

isso explica estarem embalsamados
em plástico bolha
evitando os choques ou estardalhaços bruscos

penso de na próxima que vir
deixar esses amuletos encontrarem
seu caminho ou descaminho
se acharão por si só
ou desaparecerão na névoa dos dias

importa saber que se for teu
meu, e nosso, restará,
como uma gota que mergulha
nos olhos lacrimosos e penetra
pela carne vulnerável,
os contornos loucos
que atravessam a barreira dos dias